A phinesse e o vinho

I need some fine wine, and you, you need to be nicer


Por Vini*

De vez em quando, paro e reflito sobre o que é ser phino. Alguém mais desavisado, ou um leitor desatento de primeira viagem neste barco da phinesse, poderia confundir o conceito com ser pedante, frívolo, superficial ou formalista pela forma. Conceituar e definir, de modo categórico e absoluto, é deveras difícil, considerando a vastidão da mente humana. Mas existem aquelas situações em que o alarme soa freneticamente, e você vê que um atentado à phinesse é cometido.

Este fim de semana, vivi um episódio que me incomodou. Esboço do cenário: pequena reunião de amigos da matriarca aqui em casa. Pessoas nos seus late 40s, early 50s e 60s. Eu era um dos poucos representantes da galerinha “jovem”.

Cidade do interior tem aquela ligeira obsessão por coisas que acham que é status: viagens assim e assado (leia-se “internacionais”), certos lugares, certas bebidas e assim vai. Nada contra, acho ótimo. O que eu sou contra é o uso que se faz disso. Vamos ao caso prático.

Pessoa X, “n” taças de vinho depois, para e solenemente anuncia: “só tomo vinhos chilenos, portugueses e italianos. Mas o vinho tal (que pasmem, era chileno) está abaixo da minha de qualidade”.

O vinho chileno que a senhora em questão desmereceu é bom. E, por ocasião, a senhora bebia um vinho nacional, que a matriarca gentilmente ofereceu porque considera um vinho de boa qualidade. E foi por questão de gosto, afinal, vinhos de várias nacionalidades habitam a adega doméstica, incluindo chilenos, portugueses, etc. Isso porque estava sendo servido whiskey, espumante e uma série de outras bebidas a sua escolha. Fartura é o que não falta e o livre-arbítrio etílico imperava.

Senti-me incomodado. Se ela só gosta de tais vinhos, tal vinho que ela bebia era de má qualidade? Sendo de má qualidade como ela bebeu mais de uma garrafa e meia e ficou bem alegrinha?

Gosta de viajar ao exterior, mas não sabe uma linha de inglês. No mundo atual, saber inglês não é luxo, é básico, elementar. Se a senhora gosta de desbravar o mundo, por que não faz melhor proveito de seu tempo e aprende uma outra língua? Conhecimento nunca é demais e não tem idade.

Voltemos ao vinho. É bom, eu gosto, eu bebo. Mas não porque eu acho que dê status, e sim porque eu gosto do gosto e pronto. Tem gente que aprende umas três ou quatro regras sobre a bebida e se julga o sommelier do ano. E decora certas frases para jogar em eventos sociais e demonstrar a sua “profunda” cultura.

E são essas pessoas que acompanham as listas de best-sellers e compram na livraria os mais vendidos. Sabe aquela história idiota que vende rios e rios e o povo vai lá e lê degustando aquele vinho ma-ra-vi-lho-so? Preguiça eterna, me dê uma cama que vou dormir, por favor.

Gosto é gosto. Cinema, por exemplo. “Avatar” é o mais visto da história? Maior bilheteria? Nossa, que coisa, não? Seres azuis com rabo não me interessam. Nada contra o filme, porque não vi e não vou julgar, mas a princípio não me atrai. Eu não vou ver “Avatar” só para conversar “socialmente” (ao lado daquele vinho que o pseudosommelier me oferece).

Em nome de uma suposta phinesse, as pessoas cometem atentados. A senhora do episódio narrado foi um tanto quanto indelicada, ao dar a entender que o vinho servido seria ruim. Mas pra quem bebe uma garrafa e meia, até vinho de garrafão deve servir, né? Incongruência.

Então, amiguinhos, fica aqui um aviso. Desconfiem de práticas e hábitos sociais erroneamente taxadas de phinas. Não seja escravo de modismos. Porque ser phino não tem a ver com a forma ou procedência, e sim com o conteúdo. Você não é o que bebe e sim o que você pensa. Por si próprio e não porque te mandaram pensar assim.

*Vini tem preguiça de pessoas engarrafadas em série e destila suas palavras etílicas aqui, às terça-feiras.

3 Comentários

Arquivado em fica aí a dica, vergonha alheia, Vini

3 Respostas para “A phinesse e o vinho

  1. achar vinho chileno phino é tão 2004…

  2. Bruno

    Não entendo nada de vinhos, mas concordo MUITO com sua opinião sobre os modismos. Esse povo que só sabe falar de “A Cabana”e de “Avatar” me cansa muito.

  3. Jouviã

    rótulo, tudo é rótulo.

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